segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sobre neophobia e heróis

Coitada, ela não tinha coragem.
Imaginem só, falar o que realmente sentia! Que?! Nunca!
Só uma idiota faria isso. E ela era orgulhosa, medrosa... em outras palavras, era uma verdadeira cagona.

Imagina ter que lidar com um não! Já pensou? Depois de TUDO o que passou? Nem pensar! Descartou toda e qualquer possibilidade de decepção. Abraçou forte junto ao peito as expectativas que ela mesma havia criado. Sabia que eram todas dela... mas nem por isso deixou de levá-las a sério.

Optou simplesmente por "não tentar". Ia ficar ali, sentada, sorrindo que nem idiota cada vez que lembrasse daquele abraço que parecia aquele tal "melhor abraço do mundo".
Se comparava a uma menina desajeitada de 10 anos, apaixonada pelo cara popular da escola. Ela sabia que ele nunca olharia pra ela. Ela sabia que era tudo mentira, que eles nunca dariam certo. Mas só aquele dia, que por ironia do DESTINO ele ficou na frente dela na fila do bar, já valeu o ano inteiro.

Gostava do jeito que ele a fazia se sentir (por mais que na maioria das vezes a deixasse sem reação - e completamente sem ar). Ele não era como os outros, não era vazio ou "decifrável". E apesar de isso afastar a grande maioria que só estava ali pra uma passagem rápida, a deixava cada vez mais e mais presa, sem saber muito bem que medida tomar pra conseguir voltar atrás. Porque sabia: já era tarde demais. E não tinha mais como evitar todas aquelas dúvidas...

Ela estava errada. Era tudo um erro pelos motivos mais óbvios que a vida poderia dar. Mas, no fundo, não ligava. O medo de errar era absolutamente maior do que o erro em si, e talvez por isso não se importava tanto com toda a bagunça que aquilo podia criar.

Antes de dormir, lembrou que ela tampouco era como todas as outras. Sorriu, com uma ponta de esperança de que, talvez, as coisas pudessem mudar.

No dia seguinte, quando olhou pro céu, se espantou ao ver o sol. Foi ali que se lembrou que não precisava sentir receio algum.
Pelo menos não com ele.

Encheu o peito de ar (como fazem todos aqueles super-heróis de cinema, que sempre parecem ter muita coragem), mas não fez nada que pudesse mudar a rotação da Terra ou as estações do ano. Só disse: "Vamos lá, Dezembro. Não me decepcione".


E jogou a sorte toda pro ar.

Um comentário:

Marina disse...

amei... vc escreve mto bem!